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11/08/2008

* e já que o papo da roda é a China ...



foto: Mr Lãnkes

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Do lado de fora dava para ouvir a estridente voz, que atravessava o burburinho do salão e flutuava em direção à pessoa que encontrava-se do outro lado do recinto, à altura da porta que dava para a rua.  I-ching i-chóng i-cháng,  metralhava aquela voz masculina (ou era algo mais ou menos parecido com isso, afinal, se por ventura em alguma vida anterior eu cheguei a falar o mandarim, esse encontra-se muito bem soterrado na poeira cósmica do tempo). A porta, então, se abriu e uma chinesinha, esboçando uma já habituada cara de choque térmico, traduziu o que fora dito para um sistema coletivamente mais compreeensível: number 46 ... Mister ... hmmm ... Lãnkes ... e, marcando um X ao lado do meu nome registrado em uma folha de papel, dirigiu-se a mim ao perceber a minha eufórica mão me auto-denunciando: Ok, Mr Lãnkes. You and your friends may come in now. Follow me, please ! Graças aos deuses da muralha, gritamos já sem mais sentir os nossos pés mergulhados na neve que acumulava na estreita rua.

Ao entrarmos no recinto, tivemos nossa primeira surpresa -  não é que fosse apropriado chamar aquele lugar de "espelunca" mas o restaurante era, definitivamente, bééém diferente do famosos Joe’s Shanghai que povoava nosso imaginário. "Well, appearances are deceiving !". Tínhamos ido lá para comer e era o que faríamos! E com prazer!


Uma vez acomodados às margens de uma enorme mesa redonda chegamos ao momento crucial daquela missão. Estávamos a segundos de cumprir a tarefa final, o motivo real pelo qual havíamos nos aventurado naquela peregrinação à Chinatown : ordenar e devorar os famosos dumplings do Joe's! Muitos deles! Aqueles mesmos que ao serem mordiscados, contra-atacavam os seus agressores com esguichos de uma deliciosa sopa de siri que explodia à boca e fazia todos literalmente se babarem. Poderia até ser vexaminoso, mas ninguém estava nem aí. Isso fazia parte do encantamento da experiência, sem dúvida.

A surpresa que se sucedeu à primeira dentada foi inevitável e a perplexidade estava claramente estampada nos olhares dos presentes que se encontravam a sorver aquelas incriveis bolhas suculentas: com que diabos essa chinesada maluca conseguia enfiar uma sopa dentro de uma trouxinha dessas sem que ela escorresse pelos lados e deixasse para trás somente vestigios sólidos presos à fuselagem da massa ?? Como seria possivel uma sopa de siri - que é líquida por definição – pousar inerte e estavelmente sobre uma folha de wonton para que os olhinhos-puxados pudessem aprisioná-la sem perder o seu precioso caldo pelos escoamentos das dobras ?? Well, well, well ... desconfiei que poderia haver somente uma possiblidade e a confirmação da suspeita veio ao meu encontro alguns meses mais tarde.

***
Martha Stewart, a poderosa diva multi-mídia da domesticidade americana, estava atrás de um exército extra de cooks para um mega evento que estava organizando em Manhattan e alguns conhecidos meus iriam se alistar para essa já previsivel batalha de curta extensão. Todos sabiam que a evil bitch, como era "super-carinhosamente" chamada no meio, era a megera mais intragável da face do planeta e, possivelmente, o ser humano mais difícil e intratável de se trabalhar com e para. A máxima "pagando bem que mal tem" também não era exatamente o norte nesse caso : a grana era miserável-ável mas a experiência seria certamente inestimável-ável-ável-ável (há certas ocasiões na vida em que o dinheiro definitivamente não é a generosa mão que paga a conta).

Todos estavam, na real, ávidos por gossip-material, afinal, diversão era algo raro nesse àrido mundinho da cozinha profissional. Possuir historinhas-alla-pequenas-tragédias-gregas na manga para contar mais tarde para a família e os amigos confere um certo status-quo aos mártires de avental e, de uma certa forma, compensa as horas de mal disfarçada escravidão.

Como a minha principal cliente estava em Milão, me encontrava com tempo de sobra para sair a queimar por aí. Então ... como "eu não estou fazendo nada e você também" ... lá estava eu me apresentando alinhadamente no primeiro dia do início dos trabalhos. A cândida e doce titia Martha não se fazia presente naquele exato momento e devo confessar que esse fato gerou em mim uma paleta de sentimentos contraditórios. Disfarçando a evidente decepção, tratei do negócio com a assistente da bruxa, que também não era nenhuma fada madrinha herself. Uma vez entendida qual seria a minha pequena peça daquela enorme engrenagem, fui encaminhado à minha mesa de trabalho com um sanduba-almoço debaixo do braço. Let's do it! Let’s get it done !

A cozinha estava dividida em várias zonas. Cada zona tinha um projeto único para ser desenvolvido fosse ele algum tipo de canapé, alguma sobremesa ou qualquer outra coisa .
Meus vizinhos de zona encontravam-se empenhadíssimos cortando pequenos cubos de alguma coisa que de longe parecia ser uma gelatina de cor âmbar. Como não havia tempo naquele momento inicial para as apresentações formais e os divertidos tra-la-lás de bate-papo de boa vizinhança, não procurei me colocar ao par do que estavam confeccionando. Tinha que concentrar e tocar em frente, mas não pude deixar de notar que, ao concluirem de cortar aqueles estranhos cubinhos, passaram à proxima etapa de seu projeto que consistia em retirar eventuais cacos de casca de siri, removendo-os da carne. All right, Mr Lãnkes ! Get back to work right now, please! disse a mim mesmo e enfiei a cara no meu próprio business.

***

Devo confessar que o que mais me intrigou nos dias que sucederam ao evento da Mega-Maga-Martha era o fato de eu não ter a menor idéia de como foi que essa bandidinha de colarinho branco conseguiu aquela receita do Joe’s que era - certamente - guardada a sete chaves e protegida por todos os dragões dos infernos. Ok, vamos admitir que é sabido e prá lá de notório o especial talento da senhora Stewart em conseguir informações ilícitas por debaixo dos panos mas o que ainda fugia do conhecimento público era outro fato: a megadame do entretenimento era conhecidíssima entre os chefes e banqueteiros da Big Apple pela sua prática pouquíssimo popular de roubar receitas alheias e, descaradamente, divulgá-las em seus livros e revistas como sendo suas, sem dar o menor crédito aos seus devidos autores. Que chato, né?

Como vocês podem ver, com toda essa gama de informações top-secret em mãos, creio que não seria lá muito esperto de minha parte eu deixar escapar aquela oportunidade única de tomar emprestada uma receitinha bobinha dessas em nome de um mero ataque de "pudorzinho ético". (ademais, ademais, na Sibéria não tem nada disso). Os deuses da muralha me perdoariam, sem a menor dúvida. Afinal de contas, ladrão que rouba de ladrão tem ou não tem os seus tão prometidos cem anos de perdão ?? Estou sinceramente contando com isso! Mànmàn chí !
***

A RECEITA ( afe!!! )

(rende 36 dumplings)

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sopa


5 xícaras mais 1,5 colheres de sopa (ou mais) de água
750 g asa, pescoço e carcaça de frango
50 g presunto defumado, cortado em 2 tiras
1/2 xícara de cebolinha verde ( a parte branca somente) picada
1 fatia de gengibre de 2,5 cm de diâmetro por 1,5 de espessura
1 cogumelo shiitake desidratado (*)
1 dente de alho , esmagado
1/2 colher de sopa de molho de soja
1 colher de chá de vinho chinês (de arroz ) (*)
1/2 colher de sopa de gelatina em pó sem sabor


molho


1/2 xícara de vinagre negro (*), ou balsâmico
3 colheres de sopa de molho de soja
1 colher de sopa de tiras muito finas de gengibre ( do tamanho de palitos de fosforos)


recheio


150 g porco moido
150 g de siri ou camarão, cortados em pedaços miúdos
1/4 xícara de cebolinha verde picada( somente a parte branca)
1 1/2 colheres de sopa de açúcar
1 colher de sopa de molho de soja
1 dente de alho, picado
pitada salt
pitada pimenta preta moida
1/4 colher de chá de gengibre ralado
1/4 colher de chá de vinho chinês ( de arroz) (*)
1/8 colher de chá de óleo de gergelim tostado


Dumplings (massa)


36 folhas de massa wonton de mais ou menos 10x10 cm (*) ( a receita será fornecida )1/2 cabeça de repolho chinês, folhas separadas ( ou alface)

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(*) você encontra esses produtos na Japan House, rua General Vitorino 172 ( POA)

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PREPARO


Faça a sopa


1.Combine as 10 xícaras de água com o restante dos ingredientes da sopa , com exceção da gelatina. Ferva e, com uma escumadeira, retire as impurezas que porventura subirem à superfície ( espuma) . reduza o fogo e cozinhe até as partes do frango ficarem bem macias e se desprenderem dos ossos adicionando mais àgua `medida que for necessário para manter o frango submerso. O tempo aproximado é de 2 horas e 30 minutos.


2.Coe a sopa, descarte o ossos e retorne o caldo ao fogo e reduza até obter duas xícaras de caldo concentrado.


3. Amoleça a gelatina em 3 colheres de água. Adicione ao caldo ainda quente e misture bem. Coloque esse caldo em um recipiente de 30x20x5 cm. Cubra e leve à geladeira até que a gelatina (aspic) solidifique.

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Faça o molho


Misture todos os ingredientes. Reserve.

Faça o recheio


Misture todos os ingredientes do recheio em um recipiente e corte a gelatina em cubos de 1 cm. Leve à geladeira.


Faça os dumplings


Coloque uma colher de chá do recheio sobre a massa. Adicione de 2 a 4 cubos de gelatina. Com um pincel imerso em água , molhe as bordas da massa. Levante um lado da massa e vá fazendo pequenas dobras (plissado) regulares ao redor do recheio até fechar o dumpling completamente, deixando somente um pequeno orifício acima da trouxinha. Com os dedos, torça no sentido horário a parte onde está orifício aberto, certificando-se de vedar bem a trouxinha. Coloque num tabuleiro coberto de papel manteiga e repita a operação com o restante do recheio.
( pode ser mantigo na geladeira por um dia ou congelado por duas semanas)


Cozinhando no vapor


Cozinhe os dumplings no vapor por sobre folhas de repolho chinês ou alface em steamers de bambu ou outro recipiente próprio para cozinhar no vapor. Mantenha uma distância um do outro evitando que o contato. A razão da utilização das folhas verdes é evitar que a massa grude no steamer e rompa deixando escoar toda a sopa. O tempo de cozimento no vapor é de aproximadamente 12 minutos para os dumplings frescos e 15 minutos para os congelados. Sirva-os imediatamente acompanhados do molho e, se quiser, de uma chá verde chinês. Mànmàn chí !


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14/02/2008

* a malvada carne : churrasquinho à la "pampa" ou "Pompéia" ?



Era uma manhã radiante. Um domingo de ventos acalorados e cigarras buzinantes. Da caminhonete, que encontrava-se a pastar no gramado do jardim da casa, ouvia-se o relinchar de uma estridente e bem-humorada gaita que dialogava contrapontisticamente com uma voz guasca, de textura mal barbeada e velocidade bem aguda: "i-nhéco-nhéco-nhéco-tcha-tcha-TCHÁ : Uma chamAAAAArra, uma foguEEEEEEEEEira, uma chinOOOOOOOOOca, uma ch..."

Junto à churrasqueira, o gauchão-bonachão manuseava os carregados espetos de troncudas carnes com a mesma agilidade de quem joga uma dançante partida de fla-flu. Já à meia guampa, o sapateante vivente pisoteava euforicamente as semicolcheias e fusas que eram velozmente cuspidas pelas vazadas ventanas daquela contagiante sanfona.

Um cheirinho intoxicante de carne assada se alastrava pelo ar destilando as aquosas salivas dos que estavam submersos naquela invisível névoa de odor convidativo: as prrrrendas que se aprrrressem pois o churrrAAAsco esta prrronto! trovejou o bonachão. Sua majestade - a carne - não poderia esperar. Corre–corre-pra-cá, corre-corre-pra-lá e, sete minutos mais tarde, a família toda se alojava comodamente ao redor da mesa fartamente posta.

As atenções voltaram-se, então, para o churrasqueiro e o empalado naco de bezerro assado que estava prestes a fartar a sitiada mesa. Num movimento quase olímpico, o gorducho guapo mira o seu alvo e lança o dardo em direção ao centro e, num upa digno de um espadachim, decepa uma generosa fatia de picanha que cai inerte e desequilibradamente para dentro do prato da prenda-mãe.

Ouve-se um instantâneo entrevero de ecos de ohs! de ahs! de ais! de uis! e de ecas-melecas! A prenda-velha, ao ver aquela carne a purgar um hemorrágico líquido vermelho desprende um inesperado e horripilante grito-de-Munch e cai desamparadamente ao chão, espatifando a repolhuda hortência que ornamentava os seus longos-e-negros-cabelos-de-Perla. Reação em cadeia. As gauchinhas e os gauchinhos, num somatizado efeito dominó, repetem o exemplo da china véia. Instalou-se, então, uma micro catarse familiar. Oigalê! - trompeteou ironicamente o guri mais velho para o pai embretado - o bichano está ainda aporreAAAdo ! e corre para acudir a nocauteada madre. A la pucha ! responde o véio sem saber mais o que dizer em meio a tantos narizes empinados, olhos revirados e beicinhos repugnados.

Corre-corre-de-novo. Abanam-se os que foram ao chão ajeitando-os de volta às cadeiras. Servem-lhes outro mate quente. O animal é retornado às chamas e às pressas! Recorre-se ao volume da música numa tentiva de distrair os aparentemente mais nervosos: "...se troveja a gritariAAAAAAAAAAAAAAA, já relampEEEj...". O nivel da adrenalina coletiva, aos poucos, começa a recuar a níveis mais administráveis.

Com os humores já restaurados - meia hora mais tarde - e a carne novamente submetida a mais uma sessão de bronzeamento radical, o gauchão anima-se a repropô-la para a sua ainda faminta prole. Dessa vez, porém, resolve sujeitar a bovina criatura aos exigentes paladares antes de expô-la a um previsível embaraço à mesa. Corta outro naco, crava-o na afinada ponta de sua adaga e desfila por entre os olhares desconfiados e inquisidores. A carne, que àquela altura ja' apresentava uma tonalidade cansada, foi mais uma vez embargada pela rigorosa inspeção arqui-inimiga. Algo nela sugeria - não sabiam exatamente o que – que talvez necessitasse de mais alguns reflexivos minutos na brasa. Ou melhor, vários ! ..."só para se ter a certeza que!"

O gauchão desolado e de orgulho e paciência pra-lá-de-torrados, retorna ao fogo mais uma vez acompanhado de seu rejeitado animalzinho, disposto a não ouvir mais choramingos e reclamações de quem quer que seja. Cozinhou os espetos ao ponto. Quero dizer, ao ponto de não ser mais possível reconhecer seus conteúdos como algo que já fora partes de um quadrúpede vivo. Eram distorcidos e retorcidos restos arqueológicos, irrecuperáveis cadáveres que pareciam resgatados de agonizantes lavas ardentes. Eram fósseis estéreis de algo que já teve os seus dias de glória a ruminar pelas verdes coxilhas dos pampas, a beber a cristalina água das sangas, a respirar a azul liberdade dos pagos. Já era tarde, porém. Nem cem velas acesas ao negrinho do pastoreio, nem dez novenas à Virgem-Madrinha, nem cinqüenta chibatadas do gauchão trariam de volta aquele boizinho perdido nas vulcânicas querências daquela churraqueira.

Para surpresa - ou não, para ser bem honesto - a família atirou-se vorazmente sobre aqueles restos mortais a regozijar-se com tal prazer naquilo que chamavam - num entusiasmo de puro eufemismo - de um "delicioso churrasco". Eca-meleeeeeeeeeca!!!! digo eu e o coadjuvante gauchão que, num esforço estratégico de amnésia induzida, resolvera abandonar os acontecimentos recentes e almoçar o seu domingo na suculenta e solitária tranquilidade de sua mais fiel dentre as fiéis companheiras, a mal-passada da birita. Só para ter a certeza que! "AAAAA LA PUCHA!!... i-nhéco-nhéco-tcha-tcha-TCHÁ!"

***

Com a palavra, o Gauchão:

A la pucha: exprime admiração, espanto
À meia guampa: levemente bêbado
Aporreado: cavalo rebelde, indomável
Birita: trago, bebida alcoólica
Chamarra: ritmo campeiro de origem açoriana e madeirense
China: mulher com caracteristicas indígenas; esposa
Embretado: em apuros, enrrascado
Entrevero: desordem, confusão
Fla-flu: totó, pebolim, pacau
Guapo: forte, vigoroso, valente
Guasca: homem rústico, forte , valente
Num upa: num abrir e fechar de olhos, rapidamente
Oigalê: exprime espanto, admiração, alegria
Querência: lugar onde o gado é criado, lugar onde as pessoas nasceram ou vivem
Sanga: pequeno curso d’água , menor que um arroio
Vivente: pessoa, indivíduo


Bem gente, acho que chegou a hora de termos um papo sério sobre carne, não é mesmo?


Alegorias e dramalhões a parte, o texto acima, com o seu verniz caricato e brincalhão de teatro do absurdo, não é tão absurdo assim. Surpreendentemente. Já vi por esse Rio Grande afora toneladas de boa carne serem literalmente destruidas pela ação das incandescentes brasas, para a alegria geral de muitas papilas degustativas. Me causa um certo espanto - sem querer generalizar - perceber que uma terra, cuja cultura gastronômica tenha como o seu carro-chefe a carne bovina , saiba tirar tão pouco proveito do que ela tem de melhor a oferecer, seja por desinformação, preconceito ou quaisquer que sejam as verdadeiras razões . Eu tenho uma teoria sobre esse fenômeno, mas fica para outra oportunidade a sua exposição. A idéia aqui é simplesmente falar um pouco sobre a carne bovina e o que ocorre quando exposta a a algo tao radical quanto o fogo. Pois bem, vamos lá...

Sendo a água, em média, ¾ da composição da maioria dos alimentos, o ato de cozinhar para alguns top chefes e cientistas gastronômicos é definido como a simples ação de retirada de parte desse líquido atraves de uma fonte energética como o calor . O que distinguiria o bom cozinheiro de sua contraparte mediana seria a acurada percepção de saber exatamente em que momento esse processo deve ser interrompido. O fundamental seria, então, aprender a controlar e a dominar esse delicado equilíbrio.

A carne possui, de modo geral, 75% de água, 5% de gorduras, minerais e carboidratos e 20 % de proteínas que são agrupadas em feixes musculares como os vários fios coloridos dentro de um fio de telefone, por exemplo. A sensação de sua suculência provém da gordura intramuscular e da água residual após o seu cozimento além da produção das salivas provocadas ao ser ingerida.
Embora os sucos vermelhos sejam frequentemente confundidos com "sangue", na verdade eles são simplesmente soluções aquosas provenientes das células e fibras das proteínas. Esse líquido tem a semelhança com sangue porque contem hemoglobinas e mioglobinas que são também componentes do sangue. Uma das característias dessas "binas" é a mudança de cor quando expostas à temperaturas altas : vermelho brilhante à temperatura ambiente e marrom quando chegam perto dos 60 e 65 graus centígrados que é a zona de temperatura onde o colágeno (falaremos mais tarde nele) completa a sua conversão e é justamente a zona de temperatura que a sua carne está entre malpassada e "ao ponto" preservando ainda parte de seus preciosos sucos. A partir daí voce está rumo em direção ao desértico solo de marte.

À medida que uma carne é cozida, reações químicas são acionadas. A água entre as células é aquecida e se expande. Os ‘muros’ que separam as células se rompem misturando os aminoácidos e outros componentes químicos entre si gerando novas reações químicas e tranformando o sabor dessa carne. Isso explica porque um alimento cru (carne ou vegetal) possui um sabor completamente diferente após a sua cocção. Uma carne crua tem um gosto bem mais delicado do que uma carne cozida. Essa "crueza" é para a grande maioria das pessoas percebida como "desagradável" sendo que o "agradável" ao paladar emerge somente a partir de uma certa temperatura.

Quando o calor invade as fibras de proteínas de uma carne, estas encolhem-se e espremem os seus líquidos para fora deixando-a mais e mais firme. Você percebe isso nas carnes extremamente bem passadas que apresentam uma textura dura, esfarelenta e quebradiça.
Mas não são somente as proteínas que sofrem alterações durante a cocção. Os tecidos conectivos que unem as fibras mudam também. Numa carne crua o colágeno ( que é também uma proteína mas com diferente configuração) que mantém essa carne firme é endurecido e fibroso. À medida que o calor penetra, esse colágeno se converte numa espécie de gelatina . Quanto mais tempo de exposição ao calor, maior a quantidade de gelatina produzida. Por isso que cortes de textura mais rígida - que contém bem mais colágenos que os mais macios - para serem mais facilmente digeridos necessitam ser submetidos ao fogo baixo e a um longo tempo de cozimento.

A carne contém tambem açúcares naturais ( carboidratos) que, quando aquecidos desenvolvem uma gama de sabores e odores. Isso só irá ocorrer à uma temperatura superior a 150C. Essa é a razão pela qual carnes cozidas em líquidos tem um sabor diferente das assadas em altas temperaturas e explica porque desenvolvem uma cor distinta : a água não ultrapassa a marca dos 100C.
As gorduras internas também se alteram sob a ação do fogo, lubrificando as fibras de proteínas e deixando a sensação de maciez e suculência.

Para terminar gostaria de falar um pouco do que o americano chama de efeito "carry on". Quando uma carne é retirada do fogo o seu processo de cozimento não é imediatamente interrompido porque a sua temperatura interna continuará agindo sobre a peça. Quanto maior o objeto submetido, maior a sua energia acumulada e maior será o seu tempo de cozimento "passivo". Dependendo do tamanho do corte da carne, a temperatura residual poderá elevar a sua temperatura interna em até 10 graus centígrados. Esse "bônus" extra, quando não planejado, pode ser fatal para a qualidade do produto final que vai à mesa.

Por fim, os sucos que sob o efeito de altas temperaturas convergem ao centro da carne - seja por sua evaporação da crosta, seja pela pressão da temperatura externa que os empurra para dentro, sendo essa última considerada um mito pela gastronomia molecular de Hervé This - necessitam de um tempo de 10 a 15 minutos para serem redistribuidos deixando-a homogeneamente suculenta. Ao cortá-la sem respeitar essa margem de tempo, esses sucos vermelhos purgarão volumosamente dando a impressão de que ela está terrivelmente mal passada. Esse erro tão comum entre os churrasqueiros de plantão deixa a carne irreversivelmente ressecada e, paradoxalmente, boiando sobre um "sanguinolento" laguinho no prato. E é exatamente nesse momento que a china véia faz aquele fiasco todo e, num acesso inquisitório de total descontrole, condena o herege boizinho a arder novamente nas diabólicas chamas da "reparadoura" churrasqueira. Só para que ela tenha a certeza que! Santa sacanagem, Batman!! Por acaso alguém aí sabe onde foi parar a mal-passada da birita???!!
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15/12/2007

* fábulas palacianas : memórias de um chef em reinos distantes






a

francesinha

e o

dragão chinês




Os aposentos da Rainha localizavam-se no quinto piso, à altura do último compartimento da torre, bem longe das destravadas bocas da criadagem, mas – certamente - ao alcance dos maliciosos ouvidos que a Senhora Soberana havia infiltrado pelas espessas paredes do castelo. Havia sempre, na abafada cozinha real, uma atmosfera de frívola conspiração, de furtiva alegria, de compartilhado sigilo, de afiados - mas cautelosos- sussurros entre os que por lá transitavam. Era sabido que tudo o que se sucedia naquele recinto - que se situava no porão do palácio e para onde todos convergiam para abastecer-se de comida, seja ela real ou metafórica - chegava sorrateiramente aos ouvidos da Magnânima. O devido cuidado era, portanto, mais que necessário. Era uma questão de sobrevivência.


O chef, dentre todos os subalternos, era o único ser dessa estirpe que gozava de um certo status quo de respeito e reverência. Todos na corte, estrategicamente, gostavam dele – afinal, não era lá muito prudente se indispor com o sujeito que preparava o alimento que, algumas horas mais tarde, iria acabar nas suas entranhas. Só por precaução.


Os mais diversos assuntos animavam essa oprimida, porém bem disposta classe trabalhadora. Desde temas de unânime sucesso como a nonagésima sétima cirurgia plástica da Soberana (que havia lhe conferido uma indiscutível semelhança com uma das “Mademoiselles d’ Avignon” - obra de um importante pintor de um reino distante) até questões de ordem cósmica menos relevantes, como os relatos tragicômicos sobre outros cozinheiros reais, cujas cabeças haviam rolado sob a ação das afiadas navalhas “nada fashion” de importadas guilhotinas . Tudo era farta e alegremente veiculado nos intervalos dos afazeres normais do dia. Dentre esses contos, havia o da chef francesa, trazida num tórrido verão de temperaturas escaldantes e tempestades súbitas para distrair a aborrecida Rainha e sua impertinente corte. O que realmente me impressionou nesse depoimento foi a ousadia e o desprendimento dessa intrigante personagem:

A Rainha Versátille, que nunca descia de seu firmamento celeste, encaminhara à cozinha o seu mensageiro oficial para averiguar se, dentre os distintos talentos culinários da nova cozinheira, constava algum registro do tipo “culinária chinesa”. Como o aconselhável, de acordo com o “Manual de Sobrevivência dos Servidores da Realeza Mimada (o bíblico MSSRM)”, é sempre acenar um “sim, certamente” com a cabeça quando esse tipo de situação impõe-se, o tal membro superior dessa senhorinha deslocou-se – apreensivamente, mas deslocou-se - num movimento vertical inconfundível . “ Va bene!”- diz o mensageiro - “Domani teremos um banquete cinese. Prepare-se para cinquanta invitati. O jantar inizia alle ore 20 ”, concluiu e desapareceu inexplicavelmente pelos luxuosos e atentos corredores do palácio.

As trombetas reais soaram a largada. A criadagem foi imediatamente acionada. As personalidades mais importantes de um determinado segmento do reino estariam presentes àquele evento temático: constelações de destacados designers, cantores pop, popstars, movie stars, costureiros, rappers, fotógrafos, figurinistas, diretores . Nada poderia estar fora de contexto. Seria inconcebível! A severa Rainha Versátille puniria o infrator com as devidas medidas .

Começou-se, então, a agitação dos preparativos da já-pra-lá-de-manjada (mas nem por isso mais tolerada pelos criados ) “festinha-de-última-hora”. A prataria deveria ser polida. As delicadas flores, as incontáveis velas e as apropriadas lanternas chinesas seriam encomendadas. As porcelanas caras – dentre as milhares que existiam na copa real - deveriam ser consistentemente escolhidas e, cuidadosamente, lustradas. Os guardanapos de linho branco ficariam devidamente engomados e “origami-mente” dobrados. Um séquito de servidores provisórios como garçons-modelos, bartenders-modelos, músicos-modelos, djs-modelos, mestres de cerimônia-modelos, iluminadores-modelos, maquiadores-modelos, manicures-modelos, cabelereiros-modelos , copeiras e ajudantes de cozinha (??) tinha que ser providenciado. O cardápio carecia ser criteriosamente estabelecido e os insumos, as especiarias, os woks, os chopsticks e o chá verde necessitavam ser urgentemente adquiridos. Não havia tempo a perder.

Enquanto cada um, apreensivamente, tratava de executar a sua parte , a família real, alheia às pequenas mazelas dos pequenos e comodamente acolchoada por seus guarda-costas (modelos!) inchados e bonitões, de óculos escuros e sorrisos perolados, lançava-se ávida e levianamente às avenidas -fashion a empapar-se de jóias, sapatos e vestidos “out of this world” para exibi-los “casually” naquela recepçãozinha-bem-básica. Não há nada mais “amazing” do que a monarquia!

Na noite da festa, tudo parecia em ordem. Aliás, tudo estava em ordem, indeed!! O palácio estava impecável. Os polpudos corrimãos dourados das amplas e retorcidas escadarias do saguão principal, reluziam para quem quisesse retocar a maquiagem ou até ajeitar as sedosas meias sob os “out-of-this-world” trajes . Os pontiagudos brincos, candelabros e castiçais de diamantes e cristais radiavam luminescência e a música pentatônica no ar embalava-se em um swing “lounge”. Os garçons-modelos circulavam com a elegância de bailarinos, cerimoniosamente alinhados.

A maioria dos comensais já havia chegado. Aos poucos, as dopantes espumantes se encarregavam de desencarcerar as desnudas risadas dos mais desinibidos, as sugestivas conversas dos mais ousados, os amaciados olhares dos mais galantes, os libertinos movimentos dos mais cortejadores. O clima de adagio pomposo com que a festa havia timidamente começado, rapidamente cedera lugar ao animado allegro ma non troppo - passando de raspão pelo civilizado andante - mas já se encaminhava, às pressas, para um histérico prestissimo ... assim... em questão de uma hora e 20 cosmopolitans de bergamota (!!! ...how clever...) mais tarde. Os últimos “esperados” já acenavam a sua presença . Estavam todos prontos.

Um mensageiro-modelo havia sido enviado ao porão para comunicar a francesinha. Esta se encontrava a tragar calmamente o seu cigarro com uma irrepreensível quietude zen de quem sabia que os deuses mandarins estavam todos ao seu lado. Estava tudo sob controle. “ Em breve, a cena cinese deverá ser servida.”

De volta ao salão, o ambiente encontrava-se surdo. As gargalhadas (agora incontidas), os gritos desvairados , os uivos desconcertados espremiam-se e acotovelavam-se num asfixiado instinto de encontrar uma molécula de ar - que seja - que não estivesse ocupada . A Rainha demonstrava uma discreta impaciência com a demora da chef, notada apenas pelos mais íntimos pela maneira como a sua peculiar fala de onça cativa ficara ainda mais incompreensível. O som da campainha, que acabara de soar, diluiu-se nos exóticos ding-dongs da ensurdecedora música tecnoriental, confundindo até os ouvidos mais atentos . Ding-dong mais uma vez e, finalmente, as patológicas atenções voltaram-se para o portal de entrada com aquela típica curiosidade de quem quer verificar quem seria esta intrometida persona que ninguém espera e que esta' ali a impor a sua presença.

O mordomo-modelo recorre à porta e desta emerge sinistramente um sujeito que, sem a menor sombra de dúvida, julgara que aquela festa era, obviamente, a caráter. Todos olharam pasmos para aquele serzinho de um metro e meio, de pele transparente, de cabelos negros, longos e trançados , de um contrastante e amigável sorriso, olhinhos repuxados e um sotaque inconfundível que, “corcundado” pelo peso da carga que transportava, anunciava-se animadamente: “delively!!”. O pobre infeliz, num lapso de santa inocência, havia confundido a entrada de serviço pela descomunal porta principal do palácio.


schhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhifttt !!! ...


Façamos, por favor, um minuto de silêncio ... outra cabeca acabou de rolar ! Que lástima !


***


Voltando a um tempo mais confortável....Certo dia, estava esse que vos fala na cozinha a cuidar das intermináveis tarefas diárias. Encontrava-me ainda impressionado com o episódio da francesinha que fora devorada, impiedosamente, pela besta chinesa.O mensageiro da “Soberbana”, meio que surgindo out of the blue, pigarreando anunciou a sua nobre presença. A Benevolente Senhora o havia mandado à cozinha em missão especial : averiguar com esse novo chef se, dentre os distintos talentos culinários dele, constava algum registro do tipo “ culinária chinesa” (!!!!!!!!)


Oh, oh...


Como alguém que acabara de engasgar-se num sapo desencantado, a resposta saiu coaxada e arenosa como o som do guincho de uma carroça em seu inerte movimento de freagem: “SSSSiiiim, certameeeeeen !”, murmurei num sofrido e suado falsete. Tão pouco convincente afirmativa foi, estranhamente, seguida de um desproporcional e confiante entusiasmo:“ Va bene!!!! Esteja pronto in trenta minuti!!


Whaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaatttttttttttttt????!!!!


30 minuti??????!!!!!


A única coisa que me veio à mente era, naquele momento de incômoda vertigem , a projeção de uma cena onde a Tirana Soberana - com a sua já consagrada cara de máscara africana, seu bronzeado de latão oxidado e sua mitólogica voz de dragão sonolento cujas pirotécnicas baforadas já haviam se extinguido há algumas centenas de drinkes atrás - grunhia aos obedientes guardas (logo após o seu quase envenenamento) e , com suas afiadas e super-longas garras postiças encarnadas , apontava em minha direção:


"à masmoooooooooooooorra com ele!!!"

O que se sucedeu foi, no mínimo, cômico senão trágico. Mas isso são outros quinhentos. Por hora é isso. Conto o resto dessa fábula em outra ocasião. Agora me deu fome ...vou para a masmorra, digo, para a cozinha preparar uns dumplings !! Inté.